A Lua vai alta no céu. Enfrenta a frieza da noite, com a determinação de quem sabe ter de seguir em frente. Tem os olhos postos no espelho de prata que é o rio. Quase não sento o frio que se entranha nos ossos. São já muitos os Invernos rigorosos enfrentados. Tantos que lhe enrugaram a pele, apesar da pouca idade. Teceram sulcos, como os sulcos deixados na água pelos remos do seu barco. Não teme as sombras que se agigantam sob os ramos dos salgueiros. Nem sequer aqueles gemidos estranhos, como se almas penadas lamentassem sua sorte. São os sons do vento e da noite, entre galhos que se quebram e rastejos de animais. Não se amedronta. Não vacila. Avança. Não pode perder a maré de peixe que se avizinha. Palpita-lhe que esta noite fará um bom lance.
Na tarimba ao lado da sua, ficaram as crianças adormecidas.
Ajeita melhor o lenço. Com mãos hábeis, desamarra as cordas que prendem o barco. É o seu sustento e toda a sua riqueza. Desde que o marido morrera era apenas dela, e daquelas mãos calejadas, a luta com as águas do Tejo. Uma luta solitária que os filhos minimizavam.
O Tejo era a sua casa. A sua terra, as águas.
Não sabe como veio aqui parar, ao coração do Ribatejo. Fez parte de um grupo de pescadores sazonais em busca de "mares" menos traiçoeiros. As redes, as marés, as rotinas ao sabor da sorte que o peixe ditava, ou não. Aqui se tinha instalado com o marido. Este morrera depois de anos de outras rotinas que o levavam, directamente, das redes estendidas no areal para a Taberna do Ti Manel. Lá, o fado, o movimento mágico de copos passados de mão em mão e o relatos de histórias distantes, faziam-no esquecer a mulher e os filhos. Depois, manhã fora, sentava-se frente à palhota a remendar as redes. Um dia, adormeceu sobre elas. Abraçado-as. E não acordou para a ceia que a mulher preparara.
Do mar distante, conserva-se-lhes ainda na memória, o travo amargo das suas águas revoltas. As ondas impiedosas e iradas arremetiam contra o casco, em ímpetos de arrojo. Tinham-nos enfrentado, Depois, procurado refúgio nas águas mais calmas do Tejo. Por aqui foram ficando, até que não partiram mais.
Ela nunca tinha conhecido outro canto, outras águas. Aqui, este Ribatejo feito rio, tinha sido a sua casa; a sua terra, as águas.
Esta era mais uma noite. E até que clareasse a aurora, lançaria as redes rezando para que fossem bons lances.
Era uma mulher avieira.
“ Incerto o pão na sua praia, só certa a morte no mar que os leva, eles partem. Da Vieira de Leiria vêm ao Ribatejo. Aqui labutam, alguns voltam ainda, ávidos de saudade do seu mar. Muitos ficam”
Alves Redol
Os Avieiros , Mem Martins, Europa América, sd, p.5
Ocorreu-me esta cena, esta e muitas outras, à medida que o 2º Congresso da Cultura Avieira (dias 17 e 18 de junho, no Instituto Politécnico de Santarém)
se desenrolava. Se se sabiam "avieiros"? Pouco importa. Sabem-no agora e sabemo-lo nós. Sabemos que esta cultura singular faz parte da nossa identidade. Há que preservá-la, para que não seja apenas uma onda que se formou e veio morrer breve na praia.
É um projecto que evoluiu de uma candidatura a património imaterial nacional, para uma candidatura a património da UNESCO.
Palhota, Escaroupim, Caneiras, Mouchão de S. Brás, Porto das Mulheres...Tejo acima, estabeleceu-se uma ligação entre os os avieiros e o rio. Descobri-la, é fascinante.
Recomenda-se...
foto retirada de: aazinhaga.blogspot.com

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